
A cidade e os seus sintomas
1. Primeiro ponto d’ordem: sou mindelense até ao tutano. Fui-o muito antes de me tornar cabo-verdiano, de coração e por ofício, aqui nasceram as minhas duas filhas e nestas montanhas quero que as minhas cinzas sejam espalhadas, para serem levadas pelo vento da ilha, também ele único e basofo;
2. E assim sendo, ainda me mais me motiva e me doi escrever esta crónica. O que me rodeia é preocupante, mais ainda tendo o passado recente e a vivência de todos os dias como referência. Digo sem papas na língua: a noção que temos – que gostamos de ter – da cidade do Mindelo como núcleo cultural cabo-verdiano, capital cultural do arquipélago, de dia para dia começa a perder sentido. A minha cidade está a perder a sua alma;
3. S. Vicente é uma ilha que vive hoje de pólos sazonais. O Festival Baia das Gatas, o mais antigo e o que mais prestígio tem no exterior. O Carnaval do Mindelo, o maior do país, embora nos últimos anos tenha perdido um pouco do seu fôlego, principalmente devido ao facto dos grupos de Carnaval e dos seus principais promotores se mostrarem incapazes de trabalhar juntos – e a prova disso é a associação de carnaval que nunca saiu do papel. O S. João, uma festa popular que estava moribunda e foi recuperada graças a uma iniciativa privada, com esforço e inteligência. E, finalmente, o Festival Internacionai de Teatro do Mindelo, Mindelact, hoje considerado um dos maiores eventos teatrais de todo o continente africano;
4. A cidade continua a reivindicar – com autoridade – que aqui se inspiram, vivem e trabalham alguns dos maiores valores da cultura nacional. Não precisamos ser muito criativos para sacar dos exemplos de sempre. Vasco Martins, o nosso até agora único compositor sinfónico; Germano Almeida, o nosso maior romancista; Luisa Queirós, Bela Duarte, Manuel Figueira e Tchalé Figueira, os quatro percurssores das nossas artes plásticas; aqui vive a maior embaixadora de Cabo Verde, Cesária Évora e alguns dos maiores tocadores de violão, Bau, Voginha, Hernani ou Vamar;
5. Significativo? Então porquê esta sensação de que a cidade definha, se envergonha, se encolhe perante tantos gigantes? E porquê este incómodo de parecer que ninguém se importa com o rumo que a cidade está a tomar?;
6. Dêm uma vista de olhos retrospectiva pelos jornais na campanha autárquica. Se S. Vicente é a ilha cultural, se o mindelense gosta e se orgulha de reivindicar que vive na «capital cultural», então porque se ouviu falar tão pouco de cultura durante a campanha? Eles eram vendas de terrenos, impugnações, emprego (ou a falta dele), campos de futebol, pobreza (material, claro), ambiente, turismo, desenvolvimento económico, investimento estrangeiro. Qual o destaque dado à componente cultural, quais os projectos estruturantes propostos, as soluções protagonizadas, para continuar a fazer do Mindelo a locomotiva da cultura cabo-verdiana? Não ouvi dizer nada. Nos jornais, nas entrevistas o destaque dado à componente cultural do município de S. Vicente foi praticamente nulo;
7. Podem-me dizer que nos programas eleitorais todos tinham propostas para a cultura. Mas o certo é que se a comunicação social dá destaque a certos aspectos em detrimentos de outros é porque os políticos assim pressionam ou a população assim o exige. Ou porque esses são temas que tem alguma influência no modo como o povo coloca a cruzinha, na hora do voto. Se a cultura fizesse parte, hoje, dos interesses e preocupações de todos os mindelenses, certamente esse aspecto teria eco no que foi falado, discutido e proposto durante a campanha eleitoral;
8. Uma cidade não vive apenas de acontecimentos. Vive de lugares. De sítios. De espaços. O que está a acontecer com o Mindelo é que embora os acontecimentos culturais mais importantes se mantenham vivos e punjantes, dando-nos essa ilusão de vivermos num oásis cultural que é cada vez mais fictício, a cidade está a perder as suas referências e com isso a sua própria alma. Os exemplos são muitos;
9. O Éden Park morreu. Ninguém se importou muito, ou pelo menos manifestou publicamente o seu pesar. Andar pela Praça Nova hoje e ver aquele edificio lindo, histórico, pleno de memórias, assim abandonado, provoca em mim uma tristeza incomensurável. Deixei de lá ir, em passeio, mesmo sabendo que a banda municipal ainda toca lá aos domingos, fardada e vaidosa, para as crianças que dançam em roda, dando-nos a sensação de que, se calhar, ainda há esperança para a urbe moribunda;
10. O Centro Nacional de Artesanato está fechado há 7 anos. Escrevo bem, sete. Foi uma das primeiras intenções do novo governo após a vitória retumbante de 2001, recuperar aquele edificio e aquele espólio, tão maltratado nos anos anteriores. Os seus mentores voltaram à casa que ajudaram a fundar, apesar da humilhação a que haviam sido sujeitos anteriormente, e predispuseram-se a trabalhar para salvar o que ainda podia ser salvo. Hoje, depois de vários anúncios oficiais, continua fechado. Fala-se agora que vai ser no próximo 5 de Julho, dia da Independência. Se for mais um falso alarme, paciência. Ninguém vai reparar, ninguém vai gritar ou manifestar-se. Como das outras vezes;
11. Sente-se a mágoa nas entrevistas, na voz, na escrita e até na obra de Luisa Queirós, quando ela fala do Centro Nacional de Artesanato. A artista denunciou publicamente em entrevista ao Arte & Letra que peças valiosas da história do artesanato nacional, recolhidas e/ou fabricadas no pós-independência foram roubadas, extraviadas do CNA e ninguém sabe ou explica o que aconteceu com esse património. Que eu saiba, ela não foi publicamente desmentida por ninguém, nem oficial nem oficiosamente, e portanto, das duas uma: ou não sabem o que se passa ou se sabem, não estão muito preocupados. Porque até agora ninguém foi responsabilizado pelo que aconteceu. Pior: ninguém sabe muito bem o que foi que aconteceu naquele lugar durante os últimos sete anos. A cidade importou-se? Reagiu? Deu um safanão no centralismo? Não;
12. O Centro Cultural do Mindelo está mais bonito, mas perdeu a sua alma. A saída do bar do corredor da entrada para um local pouco ou nada acessível, a nova decoração, acabou por fazer com que o que era antes um dos poucos locais onde artistas, actores, escritores, músicos, se podiam encontrar, num final de tarde, deixasse de existir. Há que reconhecer o trabalho da gerência do CCM, o esforço que é feito com pouco apoio da tutela e o orçamento ridículo que é disponibilizado, as parcerias que vêm sendo feita com grupos de teatro, dança, músicos e artistas plásticos. Mas há que reconhecer, hoje, que Mindelo perdeu um local que era de passagem obrigatória, mesmo que não houvesse actividades culturais a acontecer. Hoje, vamos lá, se houver um espectáculo, uma exposição ou para comprar um livro. Apenas e só. Os meus finais de tarde ficaram mancos;
13. Vários outros sintomas estão espalhados pela cidade, como uma peste, só não vê quem quer: a demolição do Café Royal; a invasão escandalosa e «betoniana» da marginal do Mindelo, que nos cobre o pássaro e a vista; o encerramento ou a morte lenta dos bares nocturnos de referência e das célebres noites cabo-verdianas; os concertos musicais concentrados nos hotéis de luxo; a falta de uma geração de artistas plásticos contemporâneos que ousem, reflictam, confrontem e desafiem com a sua arte o estado actual de coisas; o quase desaparecimento da associação Funaná e das actividades a ela ligadas, nomeadamente de edição – revista Da Fala – ou de promoção de ciclos de documentário e/ou produção vídeo. Muitos outros exemplos poderiam ser dados. Mas estes chegam, não?
Costuma-se dizer que o pior doente é aquele que não sabe – ou não quer – reconhecer os seus próprios sintomas. O mindelense deve ser capaz de olhar para si próprio e reconhecer que as coisas não estão nada bem. E reagir. Antes que a doença se torne terminal.
Mindelo, 30 de Maio de 2008